30 jovens que lutaram para mudar a indústria da comunicação em 2020

Quando o ano começou, ninguém tinha ideia do que estava prestes a acontecer. De repente, a pandemia chegou e tudo mudou. Entre programas de estágio cancelados, campanhas adiadas, casos de racismo, home office, demissões e uma rotina de pressão e incertezas entre videochamadas no Zoom, 2020 foi um ano marcado por muitos desafios.

Chegou a hora, portanto, de conhecer 30 jovens que ao longo do ano se uniram para transformar o mercado e dar forças para que outras pessoas passassem por tudo isso sem se sentir sozinhas. Em uma indústria tão movida por competição, em que a ideia de sucesso é sempre voltada para apontar quem é melhor, quem tem mais prêmios ou mais visibilidade, essa lista tem um objetivo diferente: celebrar quem criou iniciativas e projetos independentes para iluminar uma mudança coletiva.

Matheus Silva tem 23 anos e está no sexto período do curso de Publicidade na USP. Em junho, logo depois do #BlackOutTuesday e muitos quadrados pretos no Instagram, ele decidiu criar o vídeo Cara Gente Branca do Mundo da Comunicaçãopara expor de forma didática o elitismo, as desigualdades e o racismo que ecoa no mercado.

“Se você é branco e fala job, briefing, deadline, esse vídeo é para você.”

Hoje, com mais de 170 mil views no Instagram e com destaque em plataformas como Influência Negra e Vogue, o vídeo utiliza em menos de 6 minutos vários memes da internet para mostrar alguns passos sobre como fazer uma mudança. Não limitar a voz de pessoas pretas, ter cuidado com as projeções e investir em vozes racializadas são três dos oito caminhos que ele propõe no vídeo.

Em agosto, antes de a Magazine Luiza lançar o programa de trainee para jovens negros, a empresa procurou ajuda da Indique uma preta, consultoria fundada por Amanda Abreu, Daniele Mattos e Verônica Dudiman. Com o objetivo de assessorar toda a comunicação, linguagem, tom de voz, reacts da marca nas redes sociais e uma possível gestão de crise, o resultado virou assunto em todo o país e foi parar até no Trending Topics.

Poucas semanas depois, a Indique uma preta aproveitou a conversa para lançar a pesquisa Potências (in)visíveis: a realidade da mulher negra no mercado de trabalho. Co-criada com a Box1824 e feita com o apoio da Mutato, a pesquisa ouviu mais de mil mulheres durante 6 meses e apresenta as barreiras sistemáticas e as potencialidades da mulher negra no mercado de trabalho brasileiro. Para saber mais, a versão reduzida está disponível para download.

Trabalhar como freelancer não é fácil e envolve vários desafios, desde saber quanto cobrar até como estabelecer uma rotina e definir limites. Foi pensando em tudo isso que Denise Saito lançou em julho a Freela School, uma iniciativa que busca profissionalizar a atividade de freelancer de um jeito leve e descomplicado.

Através de videoaulas publicadas gratuitamente no Youtube, Denise divide seu conhecimento e reúne profissionais para compartilhar suas vivências e evitar que outras pessoas passem pelo que ela já passou, como um aperto financeiro por não saber quanto cobrar.

Além de um perfil no Youtube, o projeto compartilha conselhos no Instagram, oferece mentorias e uma planilha aberta sobre quanto outros profissionais costumam cobrar e receber.

Depois de dez sábados de aulas, em fevereiro a escola RUA formou sua primeira turma com 12 estudantes da área de criação. Idealizada pelo redator Felipe Silva, a escola RUA é a primeira escola de publicidade gratuita do país, cujo foco é trazer jovens moradores de regiões periféricas para dentro das agências.

Com aulas que são conduzidas por líderes expoentes do mercado, parcerias com agências e instituições de ensino e turmas direcionadas para estudantes negros, mulheres, LGBTQIA+, a ideia da escola surgiu em 2015, mas foi só no final do 2019 que Felipe conseguiu encontrar apoio e tirar o sonho do papel. Hoje, dez dos 12 jovens da primeira turma estão empregados no mercado.

Em Junho, Bruna Porto e Amanda Damaris lançaram o projeto #BlackIn com o apoio da Mutato, fazendo com que as principais lideranças que influenciam o mercado de publicidade cedessem suas páginas no Linkedin a profissionais negros que estavam desempregados durante a quarentena.

Com o objetivo de dar visibilidade e aumentar as chances de contratação, CEOs, vice-presidentes e diretores escolhiam um nome em uma lista disponibilizada pelo projeto e alteravam suas fotos de perfil e as informações da seção ‘Sobre’ para as de profissionais mapeados.

A última etapa era trocar a capa no Linkedin pelo modelo que divulgava a hashtag #conheçaumprofissionalnegro.

Maria Fiuza é redatora e Ligia Fava é diretora de arte. Logo no início da pandemia, elas criaram o Tapa na Quarentena, uma versão especial e 100% online do projeto Tapa no Portifa que surgiu em 2017. A iniciativa convocou 130 profissionais de agências do Brasil e do mundo para ajudar 130 estudantes de diferentes partes do país a montar um portfolio.

Com a quantidade de novas ideias e projetos que surgiram por meio da mentoria, no final de todo o processo surgiu o @tapanaquarentena, um perfil no Instagram que acabou se tornando uma espécie de vitrine para contratação. Até o momento, mais de 15 jovens talentos foram contratados pelo mercado.

Se a pandemia trouxe a realidade do home office para as agências, essa nova prática trouxe efeitos negativos para a rotina de trabalho. Isso foi o que Lucas Schuch descobriu ao ouvir 435 profissionais de agências de todo o país e questionar o mercado com a pesquisa ‘Home Office: tá bom para todo mundo? Mesmo?’.

Além de revelar o quanto as pessoas tem se sentido mais pressionadas pelas lideranças e de que o impacto tem sido maior para as mulheres, o estudo foi destaque em plataformas como e e mostrou que home office ainda não era algo habitual para as empresas, mesmo que elas tenham afirmado que já trabalhavam remotamente antes da quarentena.

O estudo completo está disponível neste link.

Depois de trabalhar cinco anos na área jurídica, Ketyanne Silva se encontrou na publicidade. No entanto, diante da dificuldade de encontrar profissionais negros, em abril ela lançou o Planilhas de pretos, uma plataforma que mapeia e ajuda pessoas negras a se conectarem.

No Instagram, o projeto divulga perfis de profissionais, traz dicas sobre recrutamento, conduz lives para fomentar conversas sobre carreira, além de realizar cursos e workshops gratuitos e oferecer consultoria para empresas e agências. Em poucos meses no ar, o Planilhas de pretos já conta com um time de voluntários e acumula mais de 780 nomes cadastrados.

Camila Rodrigues é diretora de arte, mas teve muita dificuldade no começo da carreira por ser sempre uma das poucas mulheres na criação e ver poucas lideranças femininas com quem pudesse conversar e se aconselhar. Por isso, como forma de ajudar mais mulheres a conquistar um lugar nas agências de propaganda, ela criou o PorTips.

Com posts sobre carreira e dicas de portfolio, o PorTips é um perfil no Instagram voltado para mulheres criativas com o objetivo de acolher, encorajar e falar sobre temas que vão desde como escolher um site para apresentar o trabalho, buscar referências e fazer curadoria de ideias até como valorizar projetos pessoais e acreditar no seu potencial.

Segundo pesquisa realizada em 2019, mulheres são 26% na criação das maiores agências do Brasil. Em 2015, esse índice era de 20%.

Tiago Tuiuiú é supervisor de planejamento em uma das maiores agências do país, cantor, produtor, morador do Parque Figueira Grande — zona sul de São Paulo — e formado em Jornalismo. Em maio, ele decidiu lançar o Projeto Quadros para falar sobre meritocracia, um tema que muitas lideranças evitam discutir ou acham que é ‘mimimi’.

Dividido em duas partes, o resultado é um áudio-documentário que mistura relatos pessoais com depoimentos de sete jovens negros moradores das periferias de São Paulo que também trabalham na área de criação e publicidade. O vídeo completo está disponível no Youtube e mostra, a partir dessas trajetórias, o quanto a meritocracia prejudica quem é negro e pobre.

Marianna Souza é de Brasília e, hoje, ela é uma das mentes por trás do Corta!, movimento que foi criado em 2017 pela APRO (Associação Brasileira de Produção de Obras Audiovisuais) para unir profissionais na luta contra o assédio no mercado de audiovisual. Em setembro, como forma de reafirmar a importância desse assunto, ela ajudou a lançar uma campanha de conscientização com três filmes na qual os roteiros são baseados em histórias reais de abuso.

Em paralelo ao lançamento dos filmes, Marianna também ajudou a promover um ‘Dia D’ nas redes sociais, mobilizando produtoras, diretores, diretoras e entidades do setor para uma manifestação coletiva sobre o tema.

90% das mulheres e 76% dos homens afirmam já ter sofrido assédio no mercado de comunicação em São Paulo, de acordo com estudo do Grupo de Planejamento em 2017.

Viajar para Cannes custa caro e é um sonho distante para muita gente. Por isso, em Janeiro, Letícia Rodrigues, Irina Didier e Flávio Salcedo lançaram o PerifaLions, um concurso para trazer mais oportunidades e visibilidade para estudantes dos cursos de Comunicação Social e Design das periferias. A premiação oferece vagas de estágio, bolsas de estudos e algo único: , além de um intensivão de inglês para a dupla vencedora.

Por causa da pandemia o Festival não aconteceu, mas isso não impediu o PerifaLions de seguir. Desde então, o projeto já conectou mais de 200 jovens — tanto das periferias de São Paulo quanto das periferias do Brasil — com profissionais e agências, promoveu 9 mentorias de orientação, 2 mentorias de capacitação, 18 lives no Instagram, 9 aulões, o que resultou em oportunidades de bolsas de estudos e contratações.

Só nas periferias de São Paulo existem mais de 15 cursos voltados para comunicação e uma média de 3 mil alunos distantes do mercado, não apenas no mapa. Quantos talentos a indústria está perdendo porque olha sempre para os mesmos espaços?

Gláuber Sampaio é de Fortaleza, designer e um dos fundadores da Aprender Design, uma escola remota que surgiu em junho com a missão de ensinar bases fundamentais para construir projetos de design, com foco no contexto brasileiro.

Com aulas ao vivo, e nunca aulas gravadas, a escola ganhou vida depois de 15 meses de testes e pesquisas até chegar em um modelo que pudesse alcançar profissionais de lugares e realidades distintas.

Em menos de 6 meses, a escola já teve 200 jovens formados, realizou 11 cursos, com zero reais investidos em marketing. Além disso, a plataforma já doou quase 100 bolsas, sendo mais de 20 integrais, para alunos que tem perfil com pouca representatividade no mercado de design e tecnologia no país.

Gustavo Borges é do interior de São Paulo, trabalha como designer, é co-fundador do estúdio criativo MusgUrbanu! e, em julho, ele denunciou publicamente um dos principais prêmios do país, Brasil Design Award pela falta de pessoas negras na composição do júri presidência da premiação.

Através de posts que viralizaram no Linkedin, Instagram e Facebook, ele chamou a atenção da organização e montou um plano de ação com medidas práticas. A partir de suas sugestões, houve uma publicação de retratação, inclusão de mais um membro negro no quadro de júri presidência, 20 profissionais negros entraram no time de júri de avaliação, 100 bolsas foram disponibilizadas para pessoas pretas e indígenas e foi firmado um comprometimento com ações antiracistas para 2021.

Daniela Arrais é jornalista e, há 4 anos, ela começou a estudar o tema síndrome de impostora e sobre o quanto isso afeta as mulheres na hora de lançar um projeto, ser promovida ou reconhecida. O resultado de toda a pesquisa e horas de conversas deu origem à série ‘Fala que eu não te escuto, impostoraque, desde agosto, já rendeu 8 vídeos no IGTV e até uma entrevista ao vivo na CNN.

Enquanto Daniela inspirava muitas mulheres em seu perfil do Instagram, em Outubro ela também decidiu ajudar criadores de conteúdo. Com o nome de Criar (s)em criseo curso online foi lançado através da Contente — empresa em que ela é sócia com a Luiza Voll — com o objetivo de ensinar maneiras de como sobreviver na internet sem perder a saúde mental e sucumbir às pressões de nunca parar, e de ter que sempre fazer mais.

Segundo pesquisa Dia Estúdio, um em cada cinco youtubers chega a sofrer de modo patológico à pressão de pensar em novos conteúdos, com o desenvolvimento de transtornos de ansiedade.

Idealizado por Guilherme Dresch, Gustavo Novais, Júlia Teodoro, Marcelo Honorio, Larissa Araújo, Laise Alves, Tamiris Cruz, Igor Pinheiro e Larissa Santos, o podcast AfroPausa surgiu no ano passado dentro de uma agência para falar sobre diversidade na publicidade, mas se tornou bem maior que isso.

Hoje, com 31 episódios lançados, mais 88 mil players e 25 mil inscritos, o AfroPausa já faz parte do NinjaCast, selo de podcasts do Mídia Ninja, ao discutir quinzenalmente temáticas que atravessam a vivência de homens e mulheres pretas, dentro e fora dos espaços criativos. Alguns dos seus episódios de maior sucesso são os de número #02 e #05 que denunciam erros em campanhas publicitárias.

O Papel & Caneta existe para reunir líderes e jovens de diferentes agências, produtoras e espaços criativos do mundo para que mais e mais pessoas possam aprender umas com as outras e construir um futuro com menos ego e competição.

Por isso, convidamos todas as pessoas para se conhecerem e compartilharem suas histórias, transformando o que até então seria apenas uma lista em um espaço de troca, afeto e união. Obrigado especial à FLAGCX e às produtoras Santa e Insólita.

Você criou este ano um projeto por conta própria para mudar o mercado e iluminar um novo rumo na indústria da comunicação? Envie um e-mail para andre@papelecaneta.org

André Chaves é o idealizador do Papel & Caneta, coletivo sem fins lucrativos espalhado por 7 cidades do mundo que conecta profissionais da indústria criativa para trabalhar ao lado de ativistas em causas sociais e ambientais.

Papel & Caneta is a nonprofit collective consisting of leading creatives who work with activists to create empathy for overlooked or unfairly judged communities

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