25 jovens que lutaram para mudar a indústria da comunicação em 2018

O ano está chegando ao fim e é nesse momento que o mercado começa a criar listas para dizer quem são os líderes mais admirados, premiados e quase sempre com os maiores salários.

O fato é que, enquanto muitas listas são feitas para dar visibilidade e reconhecer VPs, CEOs e CCOs, muita mudança vem acontecendo por quem está começando e virando dia e noite para driblar entre a rotina de agência, freelas e um projeto independente que talvez nunca será premiado, mas com certeza é muito mais relevante do que qualquer prêmio.

2018 foi o ano em que nenhuma mulher esteve presente no time de criação do Young Lions, mas também foi o ano que tivemos uma redatora de Belo Horizonte no ‘See it Be it’ de Cannes. Foi também o ano que o mercado tentou mudar as regras na forma como o Young ainda insiste em funcionar, sendo que nenhuma mudança ainda foi concretizada pela organização.

De fato, 2018 tem sido um ano complexo e polarizado. De conquistas, mas também com frustrações e alguns passos para trás. É por isso que esta lista celebra 25 jovens que, mesmo diante da realidade do mercado e do país, lutaram para desafiar e fazer a diferença de um jeito bem especial através de projetos reais. Fora dos palcos e por um caminho longe dos holofotes.

Jéssica Gomes é redatora e foi escolhida para representar o Brasil no ‘See it Be It’ em Cannes este ano. Mas ela não foi selecionada pelo portfolio. No início do ano, ela lançou com 3 amigas em Belo Horizonte o Navaranda.

Com ideias que desafiam os problemas de gênero dentro e fora da indústria, o coletivo já conectou mais de 500 mulheres criando/produzindo eventos e conteúdos autorais como a ocupação criativa Museu das Minas, os encontros do LWD e do Saúde sem Tabus, a websérie Cidade das Minas e o Plano de Menina BH, entre outros.

Mike Mendes e Rafael Moura, ambos da F/Nazca Saatchi & Saatchi, criaram o Cultura Jovem de Perifa, projeto que tem um foco na galera que vive em Diadema, lugar onde os dois cresceram e vivem atualmente.

Com o objetivo de retratar a vida na periferia, muitas vezes distante do mercado publicitário, o resultado de meses de campo deu vida a um deck com conteúdo, números, insights e um documentário que traduz a realidade que eles ainda vivem. O estudo foi apresentado na F/Nazca, na Miami Ad School, em clientes da agência, e também serviu de inspiração para duas matérias sobre futebol de várzea e a cultura das passeatas de motos em Diadema, publicadas na Vice Brasil.

O debate sobre mudanças no modelo do Young Lions Brasil sempre existiu. Todo ano as pessoas comentam nos corredores das agências: o processo é injusto, os escolhidos tem sempre o mesmo perfil (homens brancos de agência grande), e o júri já conhece os participantes.

Foi por isso que Gabriela Guerra e Leandro Bordoni criaram o Fair Lions, um site com uma proposta e um abaixo-assinado direcionado ao YL Brasil.

Com o apoio de muitos profissionais, o projeto conseguiu mais de 1.000 assinaturas ao defender o mesmo modelo da competição que acontece em Cannes: anônimo e por resolução de um briefing em até 48 horas.

Infelizmente, mesmo defendendo um maneira mais justa e inclusiva de participação, até agora nada foi realizado pela organização.

Jef Martins é bisexual, soropositivo e criado na periferia de São Paulo. Ao se deparar com as estruturas sociais existentes no mercado de comunicação, ele começou a desenvolver uma série de eventos focados na discussão sobre a ocupação de Mulheres, Pessoas Trans/LGBTQIA e Negros na publicidade.

Um desses eventos foi o Enegrecendo a Propaganda, que aconteceu em maio e reuniu mais de 130 pretas e pretos na sede da agência Tribal Worldwide para discutir os desafios, metas e conquistas da representação e participação do negro na indústria.

90% das mulheres e 76% dos homens do mercado de São Paulo já sofreram algum tipo de assédio moral ou sexual.

Lara Thomazini começou sua carreira em Salvador, trabalha como planejadora em São Paulo e, no ano passado, ela ajudou a desenvolver o estudo Hostilidade, Silêncio e Omissão que discute o assédio moral e sexual no mercado de comunicação.

Mas para tudo não ficar apenas guardado em um arquivo PDF, este ano ela deu mais de 30 palestras, visitou agências e viajou pelo Brasil para apresentar toda a pesquisa, gerar conversas sobre o resultado e, mais importante, falar sobre como agir para mudar.

Em agosto, o Boticário lançou sua campanha de dia dos pais com uma família negra, o que deveria ser a coisa mais normal do mundo.

No entanto, o vídeo recebeu 16 mil dislikes e vários comentários reclamando da falta de diversidade do comercial. A partir disso, Spartakus Santiago, diretor de arte e youtuber, criou o vídeo ‘A Família Negra do Boticário’ para explicar porque essa reclamação não fazia nenhum sentido.

O vídeo já teve mais de 1,8 milhões de visualizações no Facebook.

Nathalia Andrijic e Felipe Gavronski construíram suas carreiras em agências e consultorias em São Paulo. Eles perceberam que, apesar de muita gente se dedicar à estratégia para marcas e clientes, poucas colocam tempo para pensar na estratégia da sua própria carreira e de seus projetos pessoais.

Com isso nasceu o projeto SelfStrategy, que ajuda jovens de várias partes do país a se inserirem no mercado de Estratégia e evoluírem como profissionais. Com workshops e mentorias, em menos de 1 ano o projeto já ajudou mais de 200 jovens nos estados de SP, RJ, MG, RS e DF.

Brendo Garcia e Adriano Gonfiantini são casados e também trabalham juntos como diretores de filme. Em Abril, eles dirigiram o filme-manifesto do projeto Meu Melhor Defeito, que foi criado ao longo de um workshop de 4 dias com profissionais e jovens de diferentes agências do mercado. Tudo de forma colaborativa.

Em menos de 24 horas, o vídeo alcançou mais de 100 mil views sem nenhum gasto com mídia e foi capa na Adweek uma semana antes do Festival de Cannes começar, o que fez o mundo ficar sabendo que, apesar de ser o terceiro país mais premiado, as agências do Brasil podem até tentar disfarçar, mas ainda tem muitas questões para solucionar sem videocase.

Enquanto o filme-manifesto estava sendo gravado, mais de 30 depoimentos foram captados pelo coletivo Pujança. Karoline Maia, Carol Rocha e Camila Izidio são da periferia de São Paulo e, desde 2016, elas trabalham juntas assinando documentários e projetos para marcas.

O resultado com todos os vídeos foi publicado no Instagram e, além de reunir dicas e conselhos, o material funciona como um guia para quem acredita que os jovens que estão entrando no mercado precisam ter novas referências e de que não dá mais para esperar que os problemas de hoje sejam resolvidos por conta própria.

Em meio a um cenário político que acabou gerando posts preconceituosos nas redes sociais por alguns publicitários, o maranhense Guter Sá criou em Setembro o perfil no Instagram Oxente Your Agency, projeto para mostrar profissionais do mercado que são do Norte e Nordeste do país, mas que hoje estão trabalhando em agências de São Paulo.

Atualmente trabalhando como redator, toda a ideia surgiu a partir de uma conversa no Whatsapp com seu dupla, o Arthur Melo, também idealizador do projeto. Logo em seguida a Lara Rocantti entrou no time para ajudar na organização. Hoje, com mais de 1.500 seguidores, o perfil já divulgou mais de 100 nomes que acabam servindo de inspiração para quem quer seguir o mesmo caminho na carreira.

54% da população brasileira é negra, mas a cada 1000 funcionários nas 50 maiores agências, apenas 35 são negros.

Aquiles Filho tem 28 anos e é o idealizador do grupo Publicitários Negros, que surgiu primeiro no Whatsapp e Facebook com o objetivo de ser uma rede de apoio ao reunir 600 profissionais negros do mercado de comunicação para que pudessem trocar experiências, conselhos e indicações.

Com um perfil recentemente lançado no Instagram, hoje o coletivo também apresenta profissionais que estão atuando no mercado e serve como resposta para líderes e gestores de RH de agências que ainda usam a desculpa de que não encontram pessoas negras na hora de contratar.

Maria Paula Picin tem 24 anos, é Diretora de Arte na BETC, e assim que o Festival de Cannes terminou, ela criou o Woman Search Game, um jogo (ou um caça-palavras) para os profissionais perceberem o quanto é difícil achar um nome de mulher criativa nas fichas técnicas.

Ao analisar os brasileiros ganhadores de leão deste ano, ela verificou que dos 175 criativos premiados, apenas 17 são mulheres. Uma triste realidade.

O Mostra a Pasta é um projeto feito pelo Dennis Silveira (31), a Ana Beatriz Simões (25) e o Alexandre Diniz (28). A ideia começou como grupo no Facebook, mas no meio do ano se transformou em um evento na Cuca no formato portfolio review, unindo jovens com criativos de grandes agências. Em outubro, aconteceu seu segundo evento.

Mas diferente da primeira edição, o segundo evento foi feito para ajudar quem ainda não tinha portfólio definido — apenas trabalhos espalhados e ideias soltas. Tudo isso para sair da bolha das universidades, faculdades ou cursos de extensão e chegar até quem de fato não tem acesso, dinheiro ou nenhum profissional ao lado para pedir ajuda.

Maria Guimarães é redatora da Cubocc e co-fundadora da 6510, consultoria cuja missão é mudar o papel da mulher na publicidade. Este ano, ela foi uma das responsáveis por lançar a segunda edição do Mulheres In(visíveis).

Com fotos de Helen Salomão e feito em parceria com a Adobe, a iniciativa conta com um banco de 97 imagens de mulheres negras, idosas, lésbicas, trans e gordas para romper com os padrões estéticos dos bancos de imagens convencionais.

Clique aqui e confira todas as imagens.

Mulher, lésbica e periférica, Gabriela Rodrigues entrou no mercado publicitário depois de conseguir uma bolsa do Prouni e uma mentoria profissional.

Em Fevereiro, depois de quase 10 anos de carreira como planejadora, ela lançou o Guia de Linguagem Não Sexista, que mostra como a linguagem publicitária diminui e invisibiliza mulheres sem que muitas vezes seja percebido. Através de um powerpoint publicado no Slideshare, ela transformou todo o incômodo que ela sentia em um maneira simples e didática de conversar sobre o assunto fora e dentro das agências.

Ananda Pires é assistente de arte. Lidiane Angelo é assistente de planejamento. Desde que começaram a trabalhar juntas, elas fazem parte do comitê de diversidade da agência AKQA cuidando de campanhas que falam sobre negritude.

E o primeiro projeto que elas participaram durante o brainstorm e todo o processo criativo acabou de ser lançado: BLUESMAN, novo álbum do artista Baco Exu do Blues.

Protagonizado pelo Kelson Succi, morador do Complexo do Alemão e criador do projeto “Cuidado com Neguin”, o clipe fez outras agências elogiarem o trabalho publicamente (o que não é nada comum), recebeu o selo Staff Pick do Vimeo e chamou a atenção de celebridades como Jorja Smith e Beyoncé.

Conhece mais jovens que lutaram para mudar o mercado e iluminar um novo rumo na indústria da comunicação com projetos independentes? Envia um email para andre@papelecaneta.org

André Chaves é o idealizador do Papel & Caneta, coletivo sem fins lucrativos que reúne líderes e jovens de diferentes agências do mundo para trabalhar ao lado de ativistas em causas sociais.

Com destaque em plataformas como Paper, ATTN, Working Not Working, Campaign US, GOOD e Afropunk, este ano o Papel & Caneta foi o único projeto brasileiro mencionado na lista de ‘Ideias que estão o mudando o mundo’ da revista americana Fast Company.

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Papel & Caneta is a nonprofit collective consisting of leading creatives who work with activists to create empathy for overlooked or unfairly judged communities

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